Texto escrito por: Roney Faria Gomes
No Cine Bernardes, perdi as primeiras cenas, cheguei atrasado. Uma bala já havia partido o coração de um presidente. Em outra cena um novo ator, a grande estrela. O “artista” do impossível dizia querer luz, muita luz... e num gesto brilhante articulou, o desarticularam, mas executou. Em pleno cerrado criou um mar. A plateia apavorada ficou paralisada quando deu o blecaute. Somente os loucos, o Necreto, o Zé Mudo, a Gertrudes, o Zé Rozeno e até o Taboca se encheram de lucidez na ilusão de tanta luz. Chegamos a crer que havia embolado a fita. Inundou o Cine de água e não chovia.
Seu Du disse fim!... mas era apenas uma cena interativa num breu de coadjuvantes acendendo velas, lampiões e lamparinas que nos deixavam com o nariz enfumaçao com cara de palhaço.
O artista sorria feliz, a água invadia e o Cine se alagava. Os malucos foram perdendo a graça e a lucidez, aí tivemos que nadar e fomos pelos barrancos em busca de uma saída com dignidade. Quando na escuridão encontramos a margem, cada um tomou uma direção.
Ao longe se via o clarão da luz que dava voltas e não voltava. Baixou a água, mas ficamos na lama e no breu.
O Tito tinha uma lanterna, no bar do Bode, um lampião, todos em uma grande sinuca. O Duna quis quebrar o Pau, o Padre protegeu o Açude com o Dino na retaguarda. O Bil sabia, se não fizesse a música, o Geraldo faria.
Cumprimos “os planos de metas” que nos foram confiados e recebemos um abraço no afago alagado do grande lago, quase morremos afogados.
Os atores se foram. Ainda cantamos em coro “esse é um país que vai pra frente”, mas não nos deram a direção. E quem não sabia nadar, pra que lado iria se mudar? Foram-se para todos os cantos.
Hoje de longe, numa saudade mordida, acessamos o blog do Harley Moura para dizer que podemos voltar. E se tiver algum ingresso do Cine Bernardes, não nos esqueçam. Anote meu celular.



